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Endometriose: por que o diagnóstico demora anos e o que mudou no protocolo do SUS
Publicado em 08/10/2026 às 18:00,por: Medguias
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Endometriose afeta entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil, e o diagnóstico leva em média de 7 a 12 anos. O novo protocolo do Ministério da Saúde permite, em casos selecionados, iniciar o tratamento sem esperar confirmação cirúrgica.
Reconhecer a endometriose cedo depende de uma mudança de postura: dor que incapacita não é “só cólica”. Endometriose é uma doença ginecológica crônica e inflamatória, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio, a camada interna do útero, fora da cavidade uterina — nos ovários, nas trompas, no peritônio ou em órgãos vizinhos, como o intestino e a bexiga.
O intervalo até o diagnóstico é o principal problema. Segundo o Ministério da Saúde, o intervalo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo leva em média sete anos no país, e o novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença, publicado depois de dez anos sem atualização, cita uma média de 8 a 12 anos. Em 2024, o SUS registrou cerca de 145 mil atendimentos para investigação de endometriose na atenção primária.
A seguir, por que o diagnóstico demora tanto, quais sintomas vão além da cólica, como funciona o diagnóstico por imagem e o que o novo protocolo mudou, e quando procurar avaliação.
Por que o diagnóstico da endometriose demora tanto?
Por uma soma de fatores: os sintomas variam muito de uma mulher para outra, o diagnóstico diferencial da dor pélvica é amplo, não existe um exame de sangue que confirme a doença, e a dor menstrual intensa ainda é normalizada, inclusive por profissionais de saúde.
Há também uma barreira de acesso. O exame de imagem mais indicado, a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal, exige profissional treinado e protocolo específico, e nem sempre está disponível. Um ultrassom transvaginal comum, sem esse preparo, pode não identificar lesões profundas, e um resultado “normal” nesse exame já fez muitas mulheres ouvirem que não tinham a doença.
Por isso o relato da paciente é o dado de partida: dor que se repete, piora ao longo do tempo ou interfere em trabalho, estudos e vida sexual merece investigação, mesmo quando um primeiro exame não mostra nada.
Quais sintomas vão além da cólica?
Além da cólica menstrual intensa, a endometriose pode causar dor durante a relação sexual, dor ao evacuar ou ao urinar concentrada no período menstrual, dor pélvica crônica, sangramento aumentado e dificuldade para engravidar. Quando a doença atinge intestino ou bexiga, os sintomas podem lembrar outras condições, o que atrasa o reconhecimento.
Sintoma
Como pode se apresentar
Cólica menstrual intensa
Dor que piora ao longo dos anos ou não melhora com analgésico comum
Dor na relação sexual
Dor profunda, sentida no fundo da pelve
Sintomas intestinais
Dor ao evacuar ou alteração do hábito intestinal, piores na menstruação
Sintomas urinários
Dor ou ardência ao urinar no período menstrual, sem infecção confirmada
Dor pélvica crônica
Dor persistente fora do período menstrual
Dificuldade para engravidar
Infertilidade sem outra causa aparente
Durante anos, muitas mulheres com sintomas digestivos foram tratadas como portadoras de síndrome do intestino irritável, e outras como tendo infecção urinária de repetição, quando a causa era endometriose. Essa confusão é uma das razões pelas quais o padrão cíclico — sintomas que pioram na menstruação — é uma pista valiosa na consulta.
Como é feito o diagnóstico, e o que o novo protocolo mudou?
O exame inicial indicado é a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal, que avalia ovários, útero e as regiões onde a doença costuma se localizar; a ressonância magnética da pelve é reservada, em geral, à suspeita de doença profunda extensa e ao planejamento cirúrgico. A laparoscopia, antes tratada como padrão-ouro, deixou de ser etapa obrigatória.
O novo protocolo do Ministério da Saúde destaca que, em situações selecionadas, é possível considerar o diagnóstico presuntivo — baseado na história clínica e no exame físico — e discutir o início do tratamento sem aguardar confirmação cirúrgica. A mudança é relevante porque reduz um dos gargalos do atraso: esperar por um procedimento cirúrgico antes de tratar a dor.
Método
Papel no diagnóstico
História clínica e exame físico
Ponto de partida; podem sustentar diagnóstico presuntivo em casos selecionados
Exame de imagem inicial para lesões ovarianas e profundas
Ressonância magnética da pelve
Suspeita de doença profunda extensa e planejamento cirúrgico
Laparoscopia
Reservada a casos selecionados, não mais exigida para iniciar o tratamento
Nenhum método de imagem identifica com segurança a forma superficial da doença, e um exame sem alterações não exclui endometriose quando a história é sugestiva. É por isso que a avaliação com ginecologista experiente na doença pesa tanto quanto o exame em si.
Quais são as opções de tratamento, e como fica a fertilidade?
O tratamento é individualizado e depende dos sintomas, da extensão da doença e do desejo de engravidar: controlar a dor com tratamento hormonal é a base para muitas mulheres, e a cirurgia por videolaparoscopia é considerada em casos selecionados. O novo protocolo do SUS ampliou as opções de tratamento hormonal disponíveis na rede pública.
Quem deseja engravidar precisa de uma conversa específica, porque o objetivo muda: o tratamento hormonal controla a dor, mas não favorece a gravidez, e a abordagem pode envolver reprodução humana e, em alguns casos, cirurgia. A escolha entre as opções é sempre individual, e não deve ser iniciada, trocada ou interrompida sem acompanhamento, sobretudo no caso de medicamentos hormonais.
Para casos com indicação cirúrgica, a endoscopia ginecológica é a área de atuação que realiza a videolaparoscopia, e a fisioterapia pélvica pode compor o cuidado da dor pélvica crônica, sempre sob orientação de quem conduz o caso.
Quando procurar avaliação sobre endometriose?
Procure quando a cólica impedir trabalho, estudos ou atividades habituais, quando houver dor na relação sexual, dor ao evacuar ou urinar concentrada na menstruação, ou dificuldade para engravidar após tentativas prolongadas. Dor pélvica intensa e súbita, com febre ou desmaio, exige pronto-socorro, sem esperar consulta agendada.
Nem toda cólica indica endometriose, mas dor que se repete, piora ou incapacita não deve ser banalizada, e vale registrar, antes da consulta, em quais dias do ciclo cada sintoma aparece. Para localizar um profissional, busque ginecologistas por cidade e convênio, com CRM e RQE informados em cada perfil.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por profissional habilitado.
Cólica forte sempre significa endometriose?
Não. Muitas mulheres têm cólica intensa por outras causas. O sinal de alerta é a dor que incapacita, piora ao longo do tempo ou vem acompanhada de outros sintomas, como dor na relação sexual ou ao evacuar na menstruação.
Ultrassom transvaginal normal descarta endometriose?
Não necessariamente. Um ultrassom comum pode não identificar lesões profundas, e mesmo o exame com preparo intestinal não detecta a forma superficial. Quando a história é sugestiva, a investigação continua com ginecologista experiente na doença.
Preciso fazer cirurgia para confirmar o diagnóstico?
Não mais como regra. O protocolo atual do Ministério da Saúde admite, em casos selecionados, diagnóstico presuntivo pela história clínica e pelo exame físico, com início do tratamento sem aguardar confirmação cirúrgica.
Endometriose impede de engravidar?
Pode dificultar, mas não impede em todos os casos. Quem deseja engravidar deve conversar com o ginecologista sobre a estratégia, porque o tratamento hormonal controla a dor sem favorecer a gravidez.