Ginecologia e Obstetrícia
Endometriose: por que o diagnóstico demora anos e o que mudou no protocolo do SUS
Endometriose afeta entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil, e o diagnóstico leva em média de 7 a 12...
Entender os ovários policísticos hoje começa por uma mudança de nome. Em maio de 2026, um consenso internacional, publicado na revista The Lancet, renomeou a síndrome dos ovários policísticos como síndrome ovariana metabólica poliendócrina, a SOMP, ou PMOS na sigla em inglês. Síndrome ovariana metabólica poliendócrina é a condição hormonal e metabólica, antes chamada de síndrome dos ovários policísticos, que combina alterações da ovulação, excesso de hormônios androgênicos e riscos metabólicos, sem depender da presença de cistos.
O motivo da mudança é prático: o nome antigo levava muitas mulheres a duas conclusões erradas — “meu ultrassom não mostrou cistos, então não tenho a síndrome” e “meu laudo diz ovários policísticos, então tenho a doença”. Os especialistas reforçam que não há mudança imediata nos critérios diagnósticos nem no tratamento, e que a transição do nome será gradual, com implementação completa prevista para a atualização internacional de 2028.
A seguir, por que o nome mudou, como o diagnóstico é feito, quais sintomas e riscos metabólicos fazem parte do quadro, como o tratamento se organiza e quando procurar avaliação.
Porque “ovários policísticos” sugeria que a condição se define por cistos, quando na maioria dos casos o que se vê no ultrassom são folículos que não completaram seu desenvolvimento, e não cistos no sentido de doença. O novo nome destaca que se trata de uma condição que envolve vários sistemas do corpo, e não só os ovários.
A síndrome afeta cerca de uma em cada oito mulheres no mundo, segundo o consenso — aproximadamente 170 milhões —, e a prevalência varia entre 6% e 15% conforme o critério diagnóstico usado. A palavra “ovariana” foi mantida no novo nome pelo impacto da síndrome sobre a ovulação e a fertilidade; “metabólica” e “poliendócrina” foram acrescentadas para refletir as alterações de insulina, de peso e de vários hormônios.
Vale saber que a busca por informação ainda usa o nome antigo, e que laudos, receitas e consultas continuarão a usar “SOP” por algum tempo. Os dois nomes se referem à mesma condição.
O diagnóstico em mulheres adultas exige dois de três critérios, após a exclusão de outras causas: sinais clínicos ou laboratoriais de excesso de hormônios androgênicos, disfunção da ovulação, e morfologia policística dos ovários no ultrassom ou hormônio antimülleriano elevado. Os critérios são os de Rotterdam, mantidos pela diretriz internacional de 2023.
| Critério | O que significa |
|---|---|
| Excesso de androgênios | Pelos em excesso, acne persistente, ou aumento de hormônios androgênicos no sangue |
| Disfunção ovulatória | Ciclos irregulares, muito espaçados ou ausência de menstruação |
| Ovários policísticos ou AMH elevado | Aparência característica no ultrassom, ou dosagem do hormônio antimülleriano |
Duas consequências práticas da diretriz de 2023 são pouco conhecidas. A primeira: em mulheres adultas, o hormônio antimülleriano pode substituir o ultrassom para demonstrar a morfologia policística. A segunda: quando a disfunção da ovulação e o excesso de androgênios já estão presentes, dois critérios foram cumpridos, e o ultrassom deixa de ser necessário para fechar o diagnóstico.
Isso explica por que um ultrassom isolado não decide nada. Muitas mulheres têm ovários com aparência policística sem ter a síndrome, e outras têm a síndrome sem alteração nenhuma na imagem — por isso o diagnóstico depende da combinação de história, exame físico e exames, e não de um laudo único.
Os sinais mais comuns são ciclos menstruais irregulares ou ausentes, pelos em excesso em locais como rosto e abdômen, acne persistente e dificuldade para engravidar. A síndrome também se associa a resistência à insulina, alterações do colesterol e maior risco cardiovascular ao longo da vida, e pode afetar o humor, com mais frequência de ansiedade e depressão.
| Área afetada | O que pode aparecer |
|---|---|
| Ciclo e ovulação | Menstruação irregular, espaçada ou ausente; dificuldade para engravidar |
| Pele e pelos | Pelos em excesso, acne persistente, queda de cabelo |
| Metabolismo | Resistência à insulina, risco de diabetes, alteração do colesterol |
| Coração e vasos | Perfil de risco cardiovascular mais desfavorável ao longo dos anos |
| Saúde emocional | Maior frequência de ansiedade e depressão |
A síndrome não é exclusiva de mulheres com excesso de peso: ela ocorre também em mulheres magras, e o peso não define nem o diagnóstico nem o valor do cuidado. O que importa é reconhecer o conjunto de sinais e acompanhá-los ao longo da vida, porque os riscos metabólicos se acumulam com o tempo, mesmo quando o ciclo volta a ser regular.
O tratamento é individualizado e depende do que a paciente precisa: regular o ciclo, tratar o excesso de pelos e a acne, cuidar do metabolismo ou engravidar. Alimentação equilibrada e atividade física regular são a base para todos os objetivos, e os medicamentos entram conforme cada caso, sob acompanhamento.
Quem deseja engravidar precisa de uma conversa específica, porque a síndrome é uma causa frequente de dificuldade para ovular, e a abordagem pode envolver reprodução humana. Quem não deseja engravidar tem outras prioridades, como proteger o endométrio de ciclos muito espaçados e acompanhar glicose e colesterol com a endocrinologia e metabologia.
A escolha, a dose e a duração de qualquer medicamento dependem de avaliação individual, e não devem ser iniciadas, trocadas ou interrompidas por conta própria. O acompanhamento é de longo prazo, porque a síndrome é crônica: o objetivo não é “curar”, e sim controlar sintomas e reduzir riscos.
Procure quando os ciclos forem persistentemente irregulares ou ausentes, quando houver pelos em excesso ou acne que não melhoram, ou quando houver dificuldade para engravidar após tentativas prolongadas. Também vale buscar avaliação se um laudo de ultrassom citar “ovários policísticos” e você não souber o que isso significa para o seu caso.
Os exames hormonais e a dosagem de glicose e colesterol costumam ser pedidos na investigação, e os serviços de exames especializados e de ultrassonografia ginecológica podem ser localizados por cidade e convênio. Para começar pela avaliação, busque ginecologistas por cidade e convênio, com CRM e RQE informados em cada perfil.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por profissional habilitado.
Não necessariamente. Muitas mulheres têm ovários com aparência policística sem ter a síndrome. O diagnóstico exige dois de três critérios: sinais de excesso de androgênios, disfunção da ovulação e morfologia policística ou hormônio antimülleriano elevado.
Porque o nome antigo sugeria que cistos definiam a condição, o que gerava diagnósticos errados e confusão. O novo nome, síndrome ovariana metabólica poliendócrina, destaca o caráter multissistêmico da síndrome. A transição é gradual, e os critérios diagnósticos não mudaram.
Nem sempre. Em adultas, o hormônio antimülleriano pode substituir o ultrassom, e quando disfunção da ovulação e excesso de androgênios já estão presentes, dois critérios foram cumpridos e a imagem deixa de ser necessária.
Pode. A síndrome ocorre em mulheres de todos os pesos, e o diagnóstico não depende do peso. O acompanhamento metabólico vale para todas, independentemente do corpo.