EPIGENÉTICA E TRAUMA
Um estudo de como os conceitos de trauma e epigenética se interrelacionam, o porquê da sua utilidade como ferramenta de saber para a população em geral, tendo como base o conhecimento científico das evidências do papel da Epigenética nos processos de trauma e estresse.
INTRODUÇÃO
As Neurociências têm muito a contribuir para a construção do conhecimento e para a geração de novo entendimento do papel do homem em nossa sociedade. Para isso, não basta produzir conhecimento, mas também há a necessidade da divulgação do que se produz, em linguagem mais compactada e simples, para que a população como um todo possa conhecer e acompanhar a “escalada” da ciência.
Muito tem acontecido nas Universidades desde que Lamarck foi apresentado nos bancos de escola como alguém equivocado dentro das descobertas da ciência. O meio ambiente influenciando de alguma forma a herança genética era algo que não se concebia até poucas décadas atrás. Pensávamos em fatores de risco desencadeando doenças, mutações genéticas ocasionando síndromes, mas é um conhecimento relativamente novo para a população em geral a ação de outras reações químicas no DNA sem afetar os genes, mas podendo modificar fenótipos nas gerações seguintes. A Epigenética vem para expôr isso e o Trauma é o exemplo mais óbvio a traduzir a força que esse novo campo dentro da ciência pode ter.
Atualmente, diz-se que Epigenética permite incorporar experiências na expressão do DNA, ou seja, variações não-genéticas (epigenéticas) adquiridas durante a vida de uma pessoa podem passar aos seus descendentes, influenciando e determinando fenótipos. A terminologia Trauma em medicina admite vários significados, todos eles ligados a acontecimentos não previstos e indesejáveis que, de forma mais ou menos violenta, atingem indivíduos neles envolvidos, produzindo-lhes alguma forma de lesão ou dano. O objetivo deste trabalho de conclusão de curso é divulgar conhecimento, de forma concisa e simplificada, sobre como os conceitos de trauma e epigenética se interrelacionam, e do porquê da sua utilidade como ferramenta de saber para a população em geral, tendo como base o conhecimento científico das evidências do papel da Epigenética nos processos de trauma e estresse.
DESENVOLVIMENTO
Lamarck foi um naturalista francês que no início do século XIX propunha que as condições ambientais poderiam influenciar as características físicas e comportamentais do indivíduo. Por muito tempo suas ideias foram consideradas ultrapassadas, mas mais recentemente pesquisas no campo da Epigenética tem demonstrado que ele não estava totalmente equivocado.
O termo Epigenética foi cunhado por um biólogo inglês chamado Conrad Waddington nos anos 1940, juntando os termos epigênese e genética. Conrad questionava como era possível que o DNA, sendo o mesmo em todas as células, produzia órgãos tão diferentes e desenvolvia funções diversas.
Atualmente, diz-se que a Epigenética permite incorporar experiências na expressão do DNA, ou seja, os genes não são os únicos responsáveis por passar as características biológicas de uma geração à outra. Os cientistas, hoje, sabem que variações não-genéticas (epigenéticas) adquiridas durante a vida de uma pessoa podem passar aos seus descendentes, silenciando genes e impedindo a transcrição de proteínas a partir deles. Há alguns anos, muitas situações traumáticas eram consideradas fator de risco para alterações na saúde física e mental dos indivíduos, mas não se tinha ideia dos mecanismos epigenéticos envolvidos na gênese dos transtornos mentais e das doenças físicas secundárias ao trauma. E como isso acontece?
Estudos relacionados com cuidado materno em ratos têm demonstrado a influência do comportamento da mãe em uma medida de estresse na vida pós-natal dos ratinhos, revelando que características relacionadas à dedicação materna – como amamentar e lamber os filhotes – promovem a diminuição na produção de hormônios relacionados ao estresse na vida dos mesmos (cortisol).
Podemos então observar o cuidado materno como fator externo (ambiental) determinando a expressão fenotípica dos filhotes (mais ou menos estressados).
Em humanos, estudos mostram níveis de ACTH (adrenocorticotrofina) em resposta ao estresse seis vezes maiores em mulheres que sofreram abuso na infância, quando comparadas a mulheres que não passaram por tal situação. Experiências traumáticas em etapas iniciais da vida predispõem à maior vulnerabilidade a efeitos epigenéticos do estresse e à depressão na idade adulta, muito parecido com o que ocorre em outras espécies.
A primeira vez em que ficou claro que as alterações aconteciam não só nos indivíduos expostos, mas também nas gerações seguintes foi em um estudo na Suécia, aonde toda a população é estudada há muitos anos. Em uma aldeia ao norte deste país, dentro do Círculo Polar Ártico, com períodos longos de rigorosos invernos, eram registrados, além de dados populacionais, as colheitas que eram perdidas e as fomes que se seguiram em função disso. O que se descobriu posteriormente foi que quando a avó, enquanto feto na barriga da bisavó, ou quando o avô passou fome até ao menos os 11 anos de idade, o neto tinha maior chance de desenvolver diabetes, inclusive afetando sua sobrevida. Outras situações de trauma ou de privação demonstraram afetar gerações seguintes e passaram a ser estudadas e observadas com maior atenção.
Outro estudo similar passou a ser conduzido na Holanda, em um contexto de Segunda Guerra Mundial. Em setembro de 1944, os alemães estavam em retirada por toda Europa. Mantinham um território, no entanto, na região nordeste da Holanda, de importância estratégica e simbólica para a causa nazista. Com o avanço aliado pelo sul e uma greve ferroviária holandesa, os alemães instituíram um embargo de alimentos em retaliação à greve e a outras ações dos guerrilheiros holandeses. Infelizmente, o embargo coincidiu com um rigoroso inverno que congelou os canais, impedindo o transporte feito por barcaças. Em resposta ao avanço aliado, os alemães destruíram a infraestrutura de transporte e inundaram a maior parte das terras cultiváveis do oeste holandês. Até o final de novembro, a dieta da maioria dos habitantes do oeste da Holanda se reduziu a apenas mil calorias diárias, uma enorme
queda quando comparado com as 2300 calorias consumidas por uma mulher de vida ativa, ou as 2900 calorias consumidas por um homem ativo. No fim de fevereiro de 1945, as provisões haviam se reduzido a 580 calorias/dia em alguns locais. Os habitantes também se obrigavam a caminhar muitos quilômetros até as fazendas mais próximas, onde trocavam suas posses por comida. Para os que não tinham bens para trocar restava como último recurso comer bulbos de tulipa e beterrabas cultivadas para a produção de açúcar. Os efeitos da fome afetaram sobretudo os mais pobres e a classe média da parte oeste do país. A região leste da Holanda (cerca da metade da população) quase não foi afetada. Quando a Holanda foi liberada pelos Aliados, em maio de 1945, 22 mil pessoas haviam morrido no oeste do país. Um grupo de sobreviventes especial, aqueles que estavam nas barrigas de suas mães durante o período de fome, foram estudados em uma pesquisa sobre desnutrição, que ainda hoje se mantém em atividade. A fome holandesa é um caso singular de situação traumática/privação, pois foi possível determinar com precisão as datas de início e fim.
Estudiosos de Harvard acompanharam esse experimento natural, vendo naquela tragédia uma oportunidade para melhorar nossa compreensão acerca dos efeitos da nutrição materna sobre o desenvolvimento fetal.
O estudo constatou que o peso dos bebês nascidos no período da fome era consideravelmente menor que o dos que haviam nascido antes. Estudos posteriores estabeleceram forte ligação entre baixo peso ao nascer e saúde precária dos bebês. Quando dos 18 anos destas crianças, no momento do alistamento no exército, aqueles que haviam sido expostos durante o segundo e terceiro trimestre da gravidez da mãe apresentavam significativo aumento de obesidade (mais ou menos o dobro quando comparado aos que nasceram antes e depois da fome). Também houve constatação de aumento significativo do risco de desenvolver esquizofrenia entre os expostos (homens e mulheres) e maior incidência de transtornos de humor, como a depressão. Molecularmente, sabemos que a herança epigenética depende de pequenas mudanças químicas no DNA e nas histonas (proteínas do núcleo da célula), respectivamente, metilação e metilação/acetilação. A metilação do DNA está relacionada à repressão gênica (o gene fica metilado/marcado para não codificar proteínas). Como é um processo em gradação, quanto mais metilado, menos ativo é o
gene. A metilação não é passageira (o grupo metila tende a permanecer ligado ao DNA mesmo depois que este é copiado durante a divisão celular). A acetilação das histonas geralmente tem relação com a ativação gênica e a metilação das mesmas, resulta em
inibição. Tudo isso acontece sem alterar as sequências nucleotídicas originais do DNA.
Figura 1

As histonas são proteínas que se especializaram para empacotar o DNA em uma estrutura similar a um carretel
de linha. No passado, acreditava-se que a principal função delas seria essa, mas, atualmente, se reconhece que o
papel das histonas seria muito mais dinâmico, tendo um um papel na regulação da expressão gênica. Dependendo das
modificações ocorridas nas histonas, elas podem mudar a forma como o DNA é embalado, podem compactar essa
embalagem, tornando-o inacessível para a expressão de seus genes. Como ocorre com o DNA metilado, as histonas
metiladas são transmitidas, intactas, de uma célula a suas descendentes.
Em um estudo mais recente sobre a geração que sofreu a fome na Holanda, foi identificada, em células sanguíneas, uma série de genes com alterações epigenéticas. O grau de metilação desses genes era diferente entre os indivíduos expostos e os não expostos à fome e, foi visto que os efeitos epigenéticos do ambiente fetal podem se estender por até seis décadas. A esse respeito, cabe notar que os efeitos adversos da fome não se limitaram àqueles que a viveram. Os filhos dos que passaram pela fome no ventre materno são mais suscetíveis a apresentar problemas de saúde que os filhos de mães não expostas à fome.
Pode-se dizer que as alterações epigenéticas são primeiramente adaptativas, úteis, mas, às vezes, o custo é muito alto para o indivíduo. Se formos pensar no estudo em ratos fica mais fácil de compreender. As mães menos lambedoras também foram
ratinhos com menor cuidado materno e faz sentido que perpetuem filhotes mais estressados e mais atentos em ambientes mais inóspitos. Os ratos menos estressados, menos assustados, sobreviveriam teoricamente com menor frequência em ambiente em que a frequência de predadores é maior, já que isso exigiria uma resposta de alerta mais sensível, com maior capacidade de fuga e melhor habilidade para se esconder. Os ratos mais estressados, no entanto, poder ter maior capacidade para fuga em ambientes com muitos predadores, mas têm maior sobrecarga no sistema cardiovascular e no sistema nervoso autônomo, estando mais sujeitos às complicações ligadas a eles, inclusive com alteração em sobrevida. Em humanos isso também acontece e as situações traumáticas resultam em uma resposta ao estresse variável nos indivíduos, sendo mais exacerbada em indivíduos que já sofreram algum trauma/estresse precoce. Os filhos destes indivíduos podem vir a sofrer consequências traumáticas por duas vias: pelas alterações no comportamento dos pais traumatizados, sofrendo precocemente e apresentando alterações epigenéticas por isso, e por alterações no filho enquanto feto, já que a linha germinativa pode ter sido exposta antes de gerá-lo ou a exposição pode ter ocorrido enquanto o filho estava sendo gestado.
As situações traumáticas são então o momento em que podemos enxergar com maior facilidade os resultados da herança epigenética em humanos, já que experimentos desta monta não são possíveis por serem antiéticos (englobam um grau de sofrimento muito grande). Segundo o Cobralt (Comitê Brasileiro das Ligas do Trauma), a palavra “trauma”, do ponto de vista semântico, vem do grego trauma, cujo significado é “ferida”. A terminologia trauma em medicina admite vários significados, todos eles ligados a acontecimentos não previstos e indesejáveis que, de forma mais ou menos violenta, atingem indivíduos neles envolvidos, produzindo-lhes alguma forma de lesão ou dano. E isso se refere a traumas físicos ou psíquicos. Em psiquiatria, temos
tipos específicos de trauma psíquico, que se encontram nos manuais diagnósticos CID11 e DSM-V, chamados transtorno do estresse pós-traumático e estresse agudo.
O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT/PTSD) e o transtorno de estresse agudo são marcados por aumento do estresse e da ansiedade após exposição a um evento traumático ou estressante. Esses eventos podem incluir ser testemunha ou estar envolvido em um acidente ou crime violento, combate militar ou agressão, ser sequestrado, estar envolvido em um desastre natural, ser diagnosticado com uma doença com risco de morte ou vivenciar abuso físico ou sexual sistemáticos. A pessoa reage à experiência com medo e impotência, revive persistentemente o acontecido e tenta evitar lembrar-se dele. O evento pode ser revivido em sonhos e em pensamentos (revivências/flashbacks). O TEPT causa alterações em sistemas neuroendócrinos (opióide, noredrenérgico e eixo hipotálamo-hipófise-adrenal), sendo que todos respondem de modo a ficarem hiper-reativos. Essas mudanças ocorrem em determinadas pessoas que geralmente apresentam na sua história de vida eventos estressores passados. Outro estudo, demonstra, justamente, que pessoas que passaram por eventos adversos na infância apresentavam uma metilação diversa em um regulador de um receptor glicocorticoide, que tem relação com o cortisol e com seu papel junto ao organismo.
Como eu falava anteriormente, a respeito da herança epigenética perpassar gerações, podemos aqui apresentar o conceito de trauma intergeracional ocorrendo em vários povos e culturas. Ele foi introduzido inicialmente na literatura psiquiátrica através da descrição dos comportamentos e problemas clínicos nos filhos de alguns sobreviventes do Holocausto. Alguns achados clínicos foram: sentimentos de superidentificação e fusão de identidade com os pais, tendência a catastrofização, preocupação que o trauma nos pais poderia se repetir, experiência ansiosa, pesadelos traumáticos, disforia, culpa, hipervigilância e dificuldade no funcionamento interpessoal. Sintomas similares foram descritos em filhos de certos veteranos do Vietnã, num fenômeno chamado traumatização secundária. TEPT foi encontrado nos pais que passaram pelo trauma, mas também nos filhos, por alterações epigenéticas, e isso foi verificado em várias outras situações de trauma em outras culturas, como em populações que passaram por genocídio, limpeza étnica e guerras como no Camboja, na Armênia, na Palestina e nas comunidades da Ioguslávia. Esse efeito intergeracional em diferentes grupos sugere uma aplicabilidade global e com necessidade de maior número de estudos e observação das situações traumáticas.
O trauma psíquico vem sendo estudado de formas diversas e a Epigenética é um campo que vem a acresentar na compreensão de como ele pode nos afetar enquanto indivíduos, não só fisiologicamente ou psiquicamente, mas também do ponto de vista molecular, muito próximo ao DNA. O alento que temos atualmente tem relação com o fato de que antes achávamos que tudo era determinado geneticamente (o aparecimento de doenças, sua evolução e sua gravidade), mas que agora temos um novo campo de pesquisa com a Epigenética, que abre possibilidades outras para pensarmos em novas formas de prevenção e em novos tratamentos.
Nesse ponto, convido vocês a apreciarem a obra de Portinari chamada “Criança Morta”, que se encontra no MASP em São Paulo. Deslumbramento e sensação de desolação ficam evidentes quando nos colocamos diante da fome e da pobreza retratadas pelo autor em 1944. As lágrimas desproporcionais assim se configuram pelo transbordar de sofrimento da família que chora sua perda. Quem é a criança morta que essa mãe nos entrega? Quantas gerações adiante dos irmãos carregarão o fantasma da fome em seus genes? E quantas gerações vem carregando? Poderemos mudar a experiência traumática desta família em um futuro próximo?
Figura 2

“A linha germinal que criará nossos filhos presenciou aquilo a que nossas mães foram expostas. Nosso genoma é sensível não apenas às informações do próprio núcleo, mas às informações que continuam fluindo do mundo.” Moshe Szyf
RELEVÂNCIA E IMPACTO SOCIAL
Divulgar sobre o conteúdo Epigenética e Trauma para mídias como revistas sobre saúde ou vídeos informativos é papel também das Neurociências dentro da sua função social para ações em saúde para a população. O que antes se compreendia como fatores de risco para doenças ou transtornos mentais, pode passar a significar herança epigenética e tem impacto social, na medida que, por exemplo, se passa a saber que alguém vítima de violência na infância não só pode precisar de muitos cuidados futuros, mas que sua prole pode também precisar, em razão da herança epigenética. É relevante, portanto, que algum conhecimento sobre o tema possa circular na população sem ser “um bicho de sete cabeças”. É necessário levar ao conhecimento das pessoas que um trauma individualmente vivido e, muitas vezes com muita dificuldade tratado, pode afetar a saúde mental dos filhos.
Escrito por: Dra. Juliana Perizzolo
Especialista em Psiquiatria
CRM-SC 15564 | RQE 17165 | RQE 7963