pediatria
Doenças comuns na infância: como reconhecer, diferenciar e quando afastar da escola
Doenças comuns na infância incluem viroses respiratórias e um grupo específico chamado doenças exantemáticas —...
Entender a febre em crianças a partir da diretriz mais recente muda a forma como muitos pais reagem ao termômetro. A Sociedade Brasileira de Pediatria, no documento científico “Abordagem da Febre Aguda em Pediatria”, publicado em 2025, atualizou o valor de referência para 37,5 °C na axila — mas fez questão de destacar que essa mudança vale para padronização de estudos, não como critério para medicar ou correr ao pronto-socorro.
O recado central da diretriz é justamente esse: em cerca de 90% dos casos, a febre está associada a infecção viral autolimitada, e o que diferencia uma criança que precisa de atenção maior de outra que só precisa de conforto não é a temperatura no visor, mas como ela se comporta.
A seguir, o que mudou na avaliação da febre, quando e como usar antitérmico com segurança, o mito da convulsão febril, e quando o quadro pede avaliação médica.
A diretriz de 2025 desloca o foco do valor absoluto da temperatura para o estado funcional da criança: se ela continua ativa, aceita líquidos, interage e dorme, mesmo com febre alta, isso pesa mais do que o número do termômetro.
O contrário também vale — febre discreta com criança muito prostrada merece atenção maior do que sugere a temperatura isolada.
| Antes | Abordagem atual da SBP |
|---|---|
| Febre = temperatura igual ou acima de 37,8 °C | Novo valor de referência de 37,5 °C na axila, mas apenas para fins de padronização em estudos |
| Medicar sempre que a febre aparece | Medicar quando há desconforto evidente: choro intenso, irritabilidade, queda de apetite ou de sono |
| Foco no número do termômetro | Foco no estado geral e no comportamento da criança |
| Febre alta indica sempre doença grave | Gravidade se avalia pelo conjunto de sinais, não pela altura da febre |
Isso não significa ignorar a febre. Significa que o objetivo do cuidado passa a ser o conforto da criança, e não “normalizar” o termômetro a qualquer custo.
Use antitérmico quando a febre vier acompanhada de desconforto real — não apenas porque o termômetro passou de um número — e escolha entre paracetamol, dipirona ou ibuprofeno, sempre um de cada vez, nunca alternados ou combinados no mesmo episódio.
A alternância entre antitérmicos é uma prática comum, inclusive orientada por alguns profissionais, mas a diretriz é explícita: não há evidência de benefício adicional, e o risco de erro de dose aumenta.
| Antitérmico | Ponto de atenção |
|---|---|
| Paracetamol | Indicado desde o período neonatal; único recomendado em lactentes com menos de 1 mês |
| Dipirona | Liberada a partir de 3 meses de idade ou peso acima de 5 kg |
| Ibuprofeno | Evitar em caso de desidratação, e verificar contraindicações com o pediatra |
| Ácido acetilsalicílico (AAS) | Contraindicado em crianças pelo risco de Síndrome de Reye |
| Alternância entre dois antitérmicos | Não recomendada: aumenta risco de superdosagem sem ganho comprovado |
A dose sempre depende do peso da criança, nunca da idade isoladamente, e deve ser medida em mililitros, com o dispositivo que acompanha o medicamento — nunca em “gotas” estimadas, prática que a diretriz aponta como fonte comum de superdosagem. Se a febre não cede na primeira meia hora após a dose, isso não significa que o remédio falhou: cada antitérmico tem seu tempo próprio de ação, e repetir ou trocar antes desse prazo é o que gera erro.
Não deveria ser, embora seja mesmo assustadora de presenciar. Convulsão febril é um evento benigno, que ocorre entre 6 meses e 6 anos de idade, geralmente ligado a predisposição individual — muitas vezes familiar — e não à altura da febre. A maioria dos episódios é curta, autolimitada e não deixa sequela neurológica.
Um dado que costuma surpreender os pais: crianças já convulsionaram com febre de 37,2 °C a 37,5 °C, valores considerados baixos. Isso reforça que a convulsão febril depende mais de uma suscetibilidade individual do que de um limiar de temperatura, e por isso dar antitérmico não previne a recorrência — ele serve para o conforto da criança, não como proteção contra convulsão.
Quando o episódio é isolado e a criança se recupera bem, não há indicação de tratamento preventivo contínuo com medicação antiepiléptica. O que se recomenda é observação, leve redução de agasalhos e hidratação, além de conversa com o pediatra para confirmar que se trata mesmo de convulsão febril simples.
Vale saber que cerca de uma em cada três crianças que já teve uma convulsão febril terá pelo menos mais um episódio ao longo da infância. Isso não muda a conduta: o acompanhamento continua sendo observação e conforto, e não medicação preventiva de rotina, reservada a situações bem específicas avaliadas caso a caso.
Procure avaliação diante de bebê com menos de três meses com qualquer febre, recusa de líquidos, sonolência excessiva, dificuldade para respirar, manchas roxas que não desaparecem ao pressionar a pele, rigidez de nuca ou convulsão que dure mais de cinco minutos ou se repita no mesmo episódio.
Fora dessas situações, o acompanhamento do estado geral costuma orientar bem a decisão entre esperar e procurar atendimento.
Vale lembrar que febre alta isolada, em criança que interage bem e aceita líquidos, raramente é emergência — mas o comportamento geral da criança continua sendo o critério mais confiável, mais até do que qualquer número específico no termômetro. Para acompanhar esses episódios com o mesmo profissional ao longo do tempo, busque pediatras por cidade e convênio, com CRM e RQE informados em cada perfil.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por profissional habilitado.
Não. A diretriz atual da SBP reforça que a gravidade se avalia pelo estado geral da criança, não pela altura da temperatura. Muitas infecções virais benignas cursam com febre bem alta.
Não é recomendado como prática rotineira. Não há evidência de benefício adicional, e a alternância aumenta o risco de erro e superdosagem. Use um antitérmico de cada vez, respeitando o intervalo indicado.
Na grande maioria dos casos, não. É considerada um evento benigno, sem sequela neurológica, mais relacionado à predisposição individual do que à altura da febre.
Não. O antitérmico serve para o conforto da criança diante do mal-estar da febre, mas não há evidência de que previna a ocorrência ou a recorrência de convulsão febril.