“As incertezas e os medos que envolvem a sexualidade e a fertilidade masculina durante e após o tratamento do câncer de próstata”
O assunto é polêmico, controverso e cheio de nuances, começando pelo tabu entre os próprios homens que quando chegam aos 45 anos se enchem de preconceitos, medos e incertezas em relação a doença que acomete 1 a cada 8 homens e tira a vida de 1 a cada 40 homens com o câncer de próstata.
De acordo com as mais recentes orientações da Sociedade Brasileira de Urologia todos os homens com mais de 50 anos e aqueles com mais de 45 anos e histórico de câncer de próstata na família, obesidade ou afro-descendentes devem ser submetidos aos exames de PSA(exame de sangue que dosa o antígeno prostático) e toque retal para detectar precocemente o câncer de próstata e em seguida tratar aqueles com risco intermediário ou alto risco de falecer pela doença. O aparecimento do tumor de próstata é raro antes dos 40 anos e aumenta com a idade, representando até 40% das neoplasias malignas nos homens com mais de 50 anos de idade.
O diagnóstico e o tratamento do câncer geram efeitos físicos e psicológicos que variam a cada caso e dependem muito da personalidade individual de cada paciente. A fertilidade e a sexualidade dos pacientes oncológicos também podem ser afetadas pelas diferentes formas de tratamento instituído e também pelas mudanças que ocorrem no corpo no decorrer do tempo. No entanto, muitos homens com câncer sentem desconforto ao falar sobre problemas com a vida sexual ou questionar sobre o impacto na ereção, na ejaculação e também na possibilidade de ter filhos depois do tratamento.
Alguns cânceres podem afetar ativamente a sexualidade, e quando falamos desses cânceres, não falamos apenas daqueles que acometem os órgãos genitais e, sim, de todos os cânceres que levam em conta tratamentos mais agressivos que podem causar uma série de reações e modificações corporais.
Entre os efeitos dos tratamentos para os homens, podemos observar a incidência de depressão e o impacto emocional relacionado à impotência sexual. Contudo, a impotência não diz respeito apenas ao momento do ato sexual em si; pode aparecer no campo psíquico por intermédio de sentimentos, como se o homem não fosse mais capaz de se relacionar de maneira saudável com sua parceira (ou parceiro), com seu trabalho e com sua família.
De acordo com dados mais recentemente publicados podemos observar uma taxa de disfunção erétil (impotência sexual) que varia de 19 a 36% dependendo principalmente de dois fatores, a experiência do cirurgião e a necessidade de ressecção durante a cirurgia dos feixes vásculo-nervosos que passam ao redor da próstata e conduzem os estímulos nervosos que induzem a ereção.
Atualmente existem vários tipos de tratamento para disfunção erétil, incluindo medicações orais, medicações injetáveis, uso de bomba de vácuo e o implante de próteses penianas.
Os tratamentos não invasivos para a disfunção erétil incluem medicações orais tais como: tadalafil, sildenafil, vardenafil, lodenafil e udenafila. Essas medicações melhoram o fluxo sanguíneo do pênis, levando a dilatação e consequentemente a ereção ou endurecimento do mesmo. Existem duas formas para o uso destes remédios: uso de demanda, utilizado aproximadamente 30 minutos antes da relação sexual, ou uso contínuo, quando o paciente utiliza diariamente a medicação em doses reduzidas, favorecendo uma disponibilidade para relação sexual a qualquer momento. A principal contra-indicação para o referido tratamento é o uso de nitratos, medicação vasodilatadora utilizada para algumas doenças do coração. Se o paciente faz uso desta medicação ele deve informar ao seu médico assistente e tentar outras formas de tratamento para disfunção erétil.
Medicações auto-injetáveis no pênis – Neste tipo de tratamento os pacientes são orientados a utilizar uma seringa com pequenas agulhas para injetar as medicações vasodilatadoras (ex: fentolamina, papaverina ou prostaglandina) diretamente no pênis. Essas medicações são normalmente utilizadas em dois tipos de pacientes: os que possuem contra-indicação para medicações orais por fazerem uso de nitratos, ou para pacientes que não tem um resultado satisfatório para ereção com uso das medicações orais.
Bombas de vácuo – A terapia com bomba de vácuo pode ser prescrita como um tratamento não invasivo da DE. Quando uma ereção é desejada, o dispositivo de vácuo constrição é colocado sobre o pênis e pela retirada do ar, é criado um vácuo, melhorando mecanicamente o fluxo de sangue para o pênis. Na sequência um anel de borracha é colocado ao redor da base do pênis ereto mantendo a ereção por um período máximo de 30 minutos, caso contrário poderá levar a falta de oxigênio no pênis e consequente necrose.
Tratamento Cirúrgico – Implante de prótese peniana. Para os pacientes com disfunção erétil que não se adaptem ou não apresentem resultados satisfatórios com os métodos de tratamentos clínicos, existe ainda a opção do implante de prótese peniana, que é um procedimento seguro e eficiente, com alto índice de satisfação do casal.
O implante da prótese peniana é realizado na região interna do pênis, não ficando nada aparente externamente ao paciente. As demais sensações sexuais são mantidas, incluindo o desejo sexual, a ejaculação e o orgasmo. A função da prótese peniana é proporcionar uma rigidez adequada ao pênis para a realização da atividade sexual e para tal existem três formas de próteses penianas com custos e benefícios variados: Prótese peniana semi-rígida ou maleável, prótese peniana de dois volumes e prótese peniana de três volumes.
Quando o assunto é fertilidade, a situação deve ser obrigatoriamente conversada antes dos tratamentos oncológicos, seja por radioterapia ou por cirurgia, pois em ambos o sêmen poderá ser afetado. Quando o paciente é submetido a prostatectomia radical, cirurgia utilizada no tratamento do câncer de próstata, as vesículas seminais e a próstata são removidas e desta forma o homem passa a não ejacular mais e seu orgasmo se torna “seco”, ou seja, ele sente o prazer da relação sexual mas o líquido seminal não é mais eliminado pela uretra.
Outro tópico eventualmente questionado pelos pacientes é a possibilidade de orgasmo sem ereção e nestes casos a resposta é sim, pois o homem pode ser estimulado de diversas maneiras em áreas sensíveis de seu corpo e mesmo sem a intumescência do pênis o orgasmo pode ser alcançado. Para aqueles homens que ainda manifestam o desejo da paternidade devemos oferecer o congelamento do sêmen antes de tratá-los ou no momento de uma futura fertilização in vitro podemos puncionar os deferentes ou os testículos para capturar espermatozóides viáveis para fertilização.
Por fim vale a pena ressaltar a importância de uma abordagem multidisciplinar incluindo os oncologistas, os psicólogos, os cirurgiões urologistas, os enfermeiros e assistentes sociais, todos focados nos pacientes oncológicos, onde cada especialista vai abordar de forma particular os casos e auxiliar nos tratamentos desejados.
Autor – Prof.Dr. Ítalo Cortez, médico urologista e professor universitário, especialista em Uro-oncologia e Disfunção sexual masculina pela USP de SP.
Autor(a): Prof. Dr. Ítalo Cortez
Urologia
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Uro-Oncologia, Laser, Plasma, Laparoscopia e Robótica